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Por Maya Abreu, do home office


O WhatsApp Comunidades foi anunciado no dia 14 de abril e, desde então, tem sido um tema de debate no Brasil. Isso porque a Meta (empresa dona do mensageiro), só irá lançar o novo recurso em território nacional após as eleições de 2022, medida que estaria sendo tomada para evitar a propagação de fake news. O atraso no lançamento da função gerou reclamações do presidente Jair Bolsonaro, que se reuniu com representantes da empresa nesta quarta-feira (27) para esclarecer o porquê do adiamento do recurso de Comunidades.

Com o adiamento da implementação aqui no Brasil, foi levantada a questão: o WhatsApp Comunidades poderia mesmo interferir no fluxo de fake news na Internet? O TechTudo conversou com João Victor Archegas, do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio), e com os pesquisadores Raquel Recuero, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), e João Guilherme Bastos, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD), para entender a situação. Confira o que eles disseram a seguir.

WhatsApp Comunidades acendeu polêmicas após comentários do presidente Jair Bolsonaro, mas será que recurso pode mesmo aumentar desinformação? — Foto: Divulgação/Getty Images

Quem criou o WhatsApp? Veja curiosidades sobre o app no Fórum do TechTudo.

O que é o WhatsApp Comunidades e como vai funcionar?

O WhatsApp Comunidades é um recurso que pretende mudar a experiência de conversas em grupo no mensageiro da Meta. A função vai funcionar como um “guarda-chuva” dos chats em conjunto, contendo vários subgrupos relacionados à temática principal de um grupo mais geral. Assim, alunos de uma mesma turma poderão se reunir em um grupo que contém como subgrupos uma divisão entre estudantes de inglês e de espanhol, por exemplo.

É importante lembrar que a nova função, embora pretenda aumentar a quantidade de usuários por grupo de WhatsApp, não vai funcionar como os grupos do Telegram, que podem ser encontrados por qualquer pessoa na aba de pesquisa do app. Entenda melhor como vai ser o funcionamento do recurso.

Por que o recurso levantou tanta polêmica?

As Comunidades do mensageiro da Meta acenderam polêmicas porque, em tese, poderiam aumentar o fluxo de desinformação no app. A razão disso é que, além de conter até dez subgrupos dentro de um grupo maior, o WhatsApp poderia aumentar a quantidade de membros de cada um desses subgrupos para 512 usuários. Hoje, o limite é de 256 membros.

Na nova função, poderão ainda ser criadas listas de transmissão para todos os membros participantes. Assim, caso o recurso seja implementado dessa maneira, com dez subgrupos de pelo menos 256 usuários, especialistas calculam que uma única lista poderia de uma só vez impactar cerca de 2 mil pessoas, o que tem gerado preocupação entre o público geral do mensageiro e pesquisadores do ramo.

Além disso, o recurso também acabou gerando reclamações nas redes sociais após o presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores fazerem declarações contrárias ao adiamento da função. Na ocasião, o que tinha sido divulgado era que a Meta havia decidido adiar a implementação como resposta a um acordo feito com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Isso, então, foi alvo de insatisfação de Bolsonaro, que viu na medida uma forma de "censura".

Lançamento do recurso WhatsApp Comunidades foi adiado no Brasil por decisão da Meta — Foto: Reprodução/Getty Images

Esse caso, porém, ao que tudo indica, teve conclusão nesta última quarta-feira (27), após os representantes da Meta se reunirem com o presidente da República para falar sobre o assunto. Na ocasião, os porta-vozes esclareceram a Bolsonaro que a decisão foi feita pela própria empresa, em uma tentativa de minimizar os possíveis impactos da ferramenta no pleito eleitoral. Esse atraso, segundo o gerente de políticas públicas do WhatsApp Dario Durigan, seria uma medida “de cautela”, com a finalidade de evitar “ruído” durante o período eleitoral.

Vale destacar que, após as eleições de 2018, o papel e o impacto de redes sociais em pleitos eleitorais - e, aqui no Brasil, principalmente do WhatsApp e do Facebook, aplicativos mantidos pela Meta - foi alvo de críticas, pesquisas e polêmicas. Pouco após o pleito, em 2019, foram desvendados esquemas financiados por empresários para realizar envios em massa de conteúdo falsos no mensageiro - o que forçou a empresa a aplicar medidas para evitar a prática, como as limitações no encaminhamento de mensagens.

WhatsApp Comunidades virou polêmica após comentários do presidente Jair Bolsonaro — Foto: Reprodução/Getty Images

Mas afinal, as Comunidades podem de fato aumentar o fluxo de fake news?

O TechTudo conversou com três especialistas para entender se o fluxo de desinformação poderia aumentar com o novo recurso. De acordo com todos eles, as Comunidades poderão sim gerar um aumento na disseminação de fake news, e uma das principais razões disso seria o próprio funcionamento da função, que prevê um maior número de usuários por grupo.

Segundo João Victor Archegas do ITS Rio, as Comunidades poderão aumentar o fluxo de fake news porque, com as listas de transmissão, uma única mensagem poderia ser enviada para cerca de 2 mil pessoas - e, depois, encaminhada para uma quantidade ainda maior de usuários. “Isso [a ampliação do número de pessoas por grupos] pode ser explorado por agentes e atores mal intencionados para espalhar desinformação”, explicou.

A professora e pesquisadora de desinformação Raquel Recuero, da Universidade Federal de Pelotas, também considera que o novo recurso poderá aumentar o fluxo de fake news no aplicativo. “Com certeza essa é uma medida que amplia o potencial desinformativo, sim, uma vez que deixa muito mais fácil para os grupos que já estão organizados [compartilhar mensagens]”, disse ao TechTudo.

WhatsApp Comunidades pode sim aumentar fluxo de fake news, dizem especialistas — Foto: Getty Images/ Anadolu Agency

Concordando com os outros dois especialistas, o pesquisador João Guilherme Bastos, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD), também vê no recurso de Comunidades um potencial desinformativo de grande impacto. “[A novidade] aumenta o fluxo de tudo”, comentou.

Além disso, para ele, o recurso poderia tornar o aplicativo de mensagens ainda mais atrativo para agentes disseminadores de fake news. “Uma das chaves para fazer com que seja interessante usar ele [o WhatsApp] vem exatamente dessa possibilidade de você ter uma quantidade muito grande de grupos interconectados”, disse ao TechTudo.

À reportagem, Raquel Recuero explicou ainda que enxerga a nova função de Comunidades como “um passo para trás” no combate às fake news. O motivo disso? “São ações [a nova medida] que podem prejudicar os pleitos, que vão ser usadas para desinformação”.

E sem as Comunidades, o WhatsApp pode ainda impactar as eleições de 2022?

Para os três especialistas entrevistados pela reportagem, mesmo com o atraso nas Comunidades, o WhatsApp pode sim - e provavelmente vai - ter impacto nas eleições deste ano. Os motivos disso são vários e envolvem desde o design da plataforma até o próprio objetivo principal dela - no caso, troca de mensagens privadas.

Um dos principais motivos apontados sobre o porquê disso é a dificuldade de moderar o conteúdo compartilhado no WhatsApp, que funciona de maneira distinta de redes como Twitter e Facebook, por exemplo. O WhatsApp não tem acesso às informações trocadas dentro do aplicativo - o que, embora seja uma medida positiva à privacidade de usuário, reduz as possibilidades de moderação na plataforma.

"O leque de ferramentas e instrumentos que você pode implementar pra combater a desinformação diminui consideravelmente quando a gente fala de serviços de mensageria privada, como o WhatsApp, que possuem criptografia de ponta a ponta, justamente porque não há uma moderação de conteúdo propriamente dita nessas plataformas", disse Archegas.

Desinformação é ecossistema: além do WhatsApp, outros aplicativos são utilizados para disseminar fake news — Foto: Divulgação/Pexels

O mensageiro da Meta, no entanto, não seria utilizado sozinho por quem dissemina desinformação. Além do WhatsApp e do Telegram - mensageiro apontado pelo especialista João Victor como possível principal meio de propagação de fake news para eleições de 2022 - os pesquisadores apontam que apps como TikTok, YouTube e até mesmo Kwai têm força entre os agentes disseminadores de desinformação. Isso porque, quando um conteúdo desinformativo é publicado nessas redes, até ser excluído das plataformas, alguns usuários já terão feito download do material - que poderá, então, ser replicado (e revivido) nos aplicativos de mensagem privada.

"[A desinformação] é um sistema que engloba YouTube, Facebook, Twitter, Telegram, WhatsApp. Com muita frequência, a gente vê conteúdos desinformativos que são iguais em todas as plataformas", disse Raquel Recuero.

Como evitar fake news no WhatsApp e outros apps?

De acordo com os especialistas com quem o TechTudo conversou, é impossível acabar em 100% com a disseminação de fake news. Mas algumas ações podem ajudar nesse processo. A primeira delas seria a própria plataforma ir atrás de meios para reduzir o seu impacto enquanto agente utilizado para desinformação - o que, de alguma forma, já tem acontecido.

Em 2020, após as eleições de 2018, o mensageiro limitou o encaminhamento de mensagens para grupos e usuários individuais. Além disso, passou a banir perfis que apresentassem comportamento de bot, com envios massivos de mensagens.

Embora essas funções possam evitar que sejam usados os métodos aplicados anteriormente para disseminação de desinformação, a pesquisadora Raquel Recuero frisou à reportagem a importância das plataformas buscarem sempre novos métodos de mitigar as fake news. “O problema é que a desinformação é um ecossistema, e esse ecossistema vai aprendendo com as medidas de restrição", explicou.

A Meta deve sempre aprender os novos métodos de agentes de fake news para mitigar a disseminação — Foto: Reprodução/Pexels

Por fim, é importante frisar que a Meta e as plataformas em geral não são o único agente que pode agir contra a desinformação. Uma outra maneira interessante de mitigar a disseminação de fake news é justamente ensinar a população a identificar esse tipo de conteúdo, segundo explicou Raquel Recuero ao TechTudo. Assim, promover políticas e meios que ensinem um usuário a diferenciar um vídeo de deep fake de um legítimo, por exemplo, pode ser uma boa alternativa para reduzir a quantidade de mensagens desinformativas compartilhadas no WhatsApp e em outras redes sociais.

LEIA SOBRE O ASSUNTO:

Com informações de O Globo (1 e 2) e G1 (1 e 2)

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