Por Thássius Veloso (@thassius)

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Só se fala disso: o aumento dos furtos de celular em regiões metropolitanas. Os cidadãos estão com medo de usar o smartphone no banco de trás do carro, pois uma mão misteriosa pode surgir a qualquer momento para “catar” o aparelho e imediatamente fazer transações financeiras. A situação chegou num ponto em que fica evidente o fracasso das autoridades e das empresas – sejam bancos, operadoras de telefonia ou fabricantes de smartphone.

Num dos casos mais recentes, um morador de São Paulo teve prejuízo de mais de R$ 140 mil. Os criminosos rapidamente movimentaram diversas contas em bancos tradicionais e até mesmo fintechs, que teoricamente deveriam estar mais bem preparadas para lidar com os desafios do universo digital. A situação só foi resolvida depois que o absurdo se tornou público, com milhares de likes e comentários nas redes sociais.

Faz mais de um mês que a imprensa noticia furtos pela janela de carros — Foto: Reprodução/O Globo

O consumidor se sente sozinho, ameaçado pela criminalidade e abandonado pelas organizações que deveriam protegê-lo. Ele precisa se precaver com a adoção de medidas que diminuem a conveniência de utilizar o smartphone. Tem gente que chegou ao cúmulo de adotar o “smartphone fixo”, que permanece em casa logado nos aplicativos que mexem com dinheiro.

Não deveria ser assim. O problema aqui é – acima de tudo – de segurança pública. As autoridades prometem medidas para coibir os assaltos, mas na realidade só temos notícias de aumento no número de casos. Basta abrir o Instagram ou o WhatsApp para ver amigos se queixando da violência e do prejuízo.

O poder público fracassou. Com isso, as pessoas recorrem às ferramentas digitais dos próprios celulares para tentar se resguardar. Um dos grandes mistérios tem a ver com a biometria: até agora ninguém conseguiu explicar exatamente como os bandidos conseguem burlar essa forma de autenticação para movimentar somas financeiras.

Lição de casa para se proteger inclui muitas etapas — Foto: Reprodução/GloboNews

Alguns especialistas sugerem que os usuários não estão adotando todas as defesas digitais. No entanto, cabe ponderar que são muitas as nossas preocupações do cotidiano... fica inviável lembrar de todas as etapas para desbloquear e utilizar o aparelho que se tornou melhor amigo de muita gente.

Existe uma série de equívocos:

  • Bancos: não agem rapidamente para travar as transações. Há diversos relatos de clientes que entraram em contato e pediram bloqueio dos cartões e das contas bancárias, mas que, mesmo depois deste aviso, viram os bandidos causarem prejuízos financeiros. Cadê o gerenciamento de risco e a inteligência artificial para ter certeza de que o próprio cliente tentando movimentar importâncias 20, às vezes 30 vezes maiores do que o habitual?
  • Operadoras de telefonia: demoram para bloquear a linha telefônica. Algumas vítimas dizem que o procedimento leva de quatro a seis horas, quando deveria ocorrer em questão de minutos, segundos. Sabemos como é essencial tirar do criminoso a possibilidade de acessar a rede de telefonia. Desconectar a linha de celular impede o recebimento das mensagens SMS com códigos para verificação em duas etapas.
  • Fabricantes de celular: parecem preocupadas com o desenvolvimento de novas ferramentas que algumas pessoas classificariam como “perfumaria” enquanto não encaram a busca de soluções mais adequadas ao cenário brasileiro. Eu mesmo já conversei com os maiorais desta indústria. Perguntei o que estava sendo feito para impedir, por exemplo, que o ladrão consiga trocar a senha daquela conta de email que fica vinculada ao sistema do smartphone. Até hoje não tive uma resposta contundente.

Diante deste cenário caótico e pouco animador, o usuário precisa correr para instalar um app com senha extra para aplicativos que lidam com grana. Também tem que dominar a ferramenta de Tempo de Uso para impedir que os criminosos consigam ver os emails mais recentes. E ainda deve memorizar o novo PIN do chip de telefonia, já que a combinação padrão da operadora virou velha conhecida dos ladrões.

Passou da hora de ver o poder público e as empresas deste circuito digital se unirem para pensar soluções em conjunto. É necessário um movimento robusto de combate à criminalidade em todas as pontas: desde o assalto físico até as ações nos sistemas digitais.

Thássius Veloso (@thassius) é jornalista especializado em tecnologia, setor que cobre há dez anos. É editor do TechTudo e comentarista da CBN e da GloboNews. Entre em contato pelo email thassius@edglobo.com.br.

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