Video game

30/03/2011 17h38 - Atualizado em 14/07/2011 06h57

Por que jogar os clássicos?

Cesar Crivelaro
por
Para o TechTudo

Há disponível na Internet um excelente texto de Ítalo Calvino, chamado “Por que ler os clássicos?”, pelo qual o autor justifica a necessidade de serem lidas e relidas as obras literárias mundiais clássicas. Em seus argumentos, Calvino afirma: “De fato, as leituras da juventude podem ser pouco profícuas pela impaciência, distração, inexperiência das instruções para o uso, inexperiência da vida. (…) Relendo o livro na idade madura, acontece reencontrar aquelas constantes que já fazem parte de nossos mecanismos interiores e cuja origem havíamos esquecido.”. Mas, pensando bem, por que não se aplicar isto aos games também?

Assim como no mundo dos livros, os games clássicos são referências não só de nostalgia, mas também de qualidade. E quem não concorda que jogar um game clássico é fundamental para o desenvolvimento crítico dos jogos que estão no mercado e que ainda estão por vir? Além de contribuir com momentos de exaltação desta arte de jogos, um clássico é sempre referência para outros jogos, além de um importante elemento da história em geral.

Foram eleitos aqui sete jogos clássicos do primeiro Playstation que estão disponíveis na PSN com o selo PSOne Classics para explicar porque são tão importantes e precisam ser jogados. É uma lista apenas contendo jogos de Playstation e, obviamente, muitos outros da plataforma foram excluídos. Não que não mereçam ser mencionados, muito pelo contrário; mas é que os sete jogos abaixo são clássicos da literatura de games que, assim como “A Odisseia”, “Os Lusíadas” e “Édipo Rei”, são importantes para a cultura mundial.

Metal Gear Solid

“Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos.”

Metal Gear Solid é um dos melhores jogos de Playstation, se não “o melhor jogo”. O game, criado por Hideo Kojima, foi revolucionário no gênero stealth, em que passar despercebido é mais importante que sair atirando em todo mundo. Porém o jogo é muito mais do que espionagem, salvar políticos importantes e deter armas nucleares. Na verdade, essa parte jogável é a menos importante.

Se esconder é mais eficiente que sair atirando. (Foto: Divulgação)Metal Gear Solid (Foto: Divulgação)

O jogo possui um enredo muito complexo que envolve política, guerras, censuras, inteligência artificial, engenharia genética e muitas relações humanas. Com uma abordagem bastante intrínseca de cada elemento, o game desvirtualiza conceitos e valores do jogador. Assim, quando se completa as últimas missões, tanto o protagonista Solid Snake quanto o jogador já são muito diferentes dos que eram no começo do game; isto porque Metal Gear Solid questiona temas universais, independentemente da religião, do país, da sua história; e é isto que torna o jogo uma obra-prima.

Metal Gear Solid possui também vários elementos cinematográficos, como filmagens e diálogos. característicos da série. As conversas por codec somam horas e horas de áudio, trazendo uma imersão fantástica ao universo do game. Esta imersão faz um diálogo entre o protagonista e o jogador, desmitificando os conceitos que Solid Snake e você, como jogador, têm do mundo de Metal Gear e do mundo real.

Final Fantasy VII

“Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: ‘Estou relendo…’ e nunca ‘Estou lendo…’”

Final Fantasy VII pode não ser o melhor RPG do mundo, mas com certeza é um fato histórico importantíssimo na indústria de games. Pode-se definir tranquilamente o universo de RPGs da seguinte forma: antes e depois de Final Fantasy VII. Não que não tenha havido RPGs bons antes, muito pelo contrário; mas este game direcionou o caminho que todos os outros jogos deveriam tomar.

Primeira batalha em Final Fantasy VII (Foto: Divulgação)Primeira batalha em Final Fantasy VII (Foto: Divulgação)

Pense na época: os jogos eram curtos, tinham uma produção mais barata e gráfico e jogabilidade mais “simples”. Quando apareceu, revolucionou o mercado: ultrapassando os limites da sua mídia física (sendo necessários 3 CDs), com gráficos 3D, uma trilha sonora magnífica, cenas cinematográficas e um roteiro holywoodianamente inspirado, o jogo teve também um grande número de vendas. Com um tema atual (“preservação do planeta”, de forma indireta) e com um vilão e uma música-tema que são referências até hoje, o game cativou os jogadores com mais de 60 horas de duração com várias reviravoltas e peripécias no enredo.

Final Fantasy VII serviu de inspiração para muitas obras, não apenas para os Final Fantasies seguintes, mas para toda a nova geração de “RPGs cinematográficos” que começara a surgir. O jogo pode hoje ser “encontrado” em muito outros posteriores a ele, influenciando em melhorar a trilha sonora (atuando harmonicamente com os sentimentos que o roteiro proporciona ao jogador), levar mais a sério o enredo (criar diversas ramificações ao roteiro principal), criar jogabilidade distinta e criativa (sistema de Materia deu ignição a jogabilidades muito mais criativas), tornar os personagens mais humanos (reações humanas menos artificiais), além de induzir a melhores gráficos e mais cenas de ação. Fica claro que este jogo foi um marco na história não só dos games, mas também do mundo do entretenimento, de uma forma bem direta.

Resident Evil

“Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes).”

A belíssima mansão é muito bem detalhada (Foto: Divulgação)Resident Evil (Foto: Divulgação)

Resident Evil foi, por um bom tempo, o pesadelo de muita gente. Não foi o precursor do gênero de terror, mas soube canalizar cada elemento importante do gênero e concentrou-o em todos os momentos do jogo, tornando-se clássico de forma instantânea e sendo até hoje lembrado pelos seus impressionantes momentos e seu enredo surpreendente.

Entre os muitos elementos de terror, o cenário cumpriu seu papel com uma maestria impecável. Por meio de “fotos”, os belíssimos cenários retrataram a mansão, o laboratório e outros lugares com os mais ricos detalhes, dando até certa impressão de realismo. Como todo bom jogo de terror, os ângulos que os cenários mostravam eram estrategicamente posicionados para momentos de susto tirarem a concentração do jogador. Vale lembrar que a trilha sonora é espetacular. Tocada em momentos específicos, o clima de terror era mais acentuado, dando a todo local de exploração um ar de mistério. A obra “Moonlight Sonata”, do famosíssimo compositor Ludwig Van Beethoven, também tem sua participação, colaborando para gerar um clima muito mais sombrio e assustador. Veja abaixo a tradicional abertura filmada do jogo.

 

Mas o que garante Resident Evil um marco na indústria de games são os elementos que o definem no gênero “Survival Horror”: os puzzles, a falta de equipamentos e os zumbis. O jogo conta com diversos e também difíceis quebra-cabeças para serem solucionados ao longo do jogo, desde posições de esculturas, ordem de quadros, variações de chaves e portas para destrancar. Mas, acima de tudo isso, o pânico que os inúmeros zumbis provocam e a falta de munição para as armas para descarregar neles cria uma necessidade de sobrevivência que atiça os mais puros instintos do jogador, tornando os quebra-cabeças e os sustos deixem o jogador alerta dos perigos que o cercam para tornar-se sobrevivente de um grande pesadelo.

Xenogears

“Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.”

Xenogears é um RPG típico “para poucos”, pois, para apreciá-lo em sua plenitude, é necessário ser emocional e racional ao mesmo tempo. É preciso raciocinar com os sentimentos e emocionar-se com os pensamentos para compreender toda a filosofia por trás do jogo. Os grandes poderes que controlam o mundo em Xenogears possuem uma relação complexa. Ao longo do jogo, os valores morais e sociais são questionados e ignorados, refletindo no protagonista e no próprio jogador ao questionar o mundo real.

Xenogears (Foto: Divulgação)Xenogears (Foto: Divulgação)

O jogo trata as religiões, as formas de governo e as culturas presentes nos vários continentes de forma singular. Todas as religiões são desmitificadas ao profano, as atitudes de Deus são questionadas e desafiadas e o que era para ser um ponto de refúgios para os humanos, acaba sendo uma forma de manipulação que o governo encontra para dominar as pessoas. A política é vista como alimento ao ego e o jogador vai desde um golpe de estado em uma monarquia a salvar líderes de estados absolutistas. A filosofia, a psicologia, a sociologia e as teorias da conspiração, neste jogo, aparecem em diversas referências (desde atitudes a nomes e eventos). A aventura do protagonista Fei Fong Wong, que saiu em busca de seu passado esquecido, torna-se uma luta pelo destino que já está traçado a milhares de anos (com muita história contada ao longo do jogo).

É muito complicado citar o quão grandiosa é a obra de arte que Xenogears representa. Todas as vezes que você joga, percebe algo diferente, algo que a sua maturidade anteriormente não conseguiu absorver. Um grande exemplo que passa muitas vezes despercebido é a trilha sonora. Este game possui uma verdadeira obra-prima no quesito da composição musical, pois as músicas trabalham uma parte do roteiro que não é descrita: os sentimentos dos personagens. Portanto, o jogo é uma metáfora à natureza humana, também questionada em Xenogears: com tantos elementos racionais bombardeando o jogador, os sentimentos são muitas vezes ignorados, mas tem participação fundamental para entender o game como um todo.

Castlevania – Symphony of the Night

“Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura.”

A série Castlevania é clássica no mundo dos games. As batalhas incessantes com temas de vampiros e vários tipos de monstros tomou um rumo totalmente diferente nesta edição para Playstation, por conta de um novo diretor, Koji Igarashi, em que vários elementos de RPG foram inseridos. Assim, o game distorceu as características de um gênero, criando algo único.

Castlevania (Foto: Divulgação)Castlevania (Foto: Divulgação)

A primeira coisa que todo jogador repara é na trilha sonora, composição de Michiru Yamane. Com a qualidade de um CD de música, as belíssimas composições eram uma mistura de música clássica com rock. As músicas clássicas variam de ballets, instrumentais e sinfônicas e mesclam com hard e power rock e também o estilo progressivo. O resultado nessa mistura são mais de 30 músicas, cada uma com sua originalidade e peculiaridade, tornando-se até hoje umas das mais belas trilhas sonoras já criadas para um jogo.

Os gráficos impressionam logo em seguida. Há uma quantidade enorme de desenhos de inimigos e de suas animações, bem como variados movimentos para o protagonista Alucard. As animações são suaves, garantidas por uma alta frequência de quadros por segundo. O jogo tem belíssimos cenários desenhados e com livre exploração, diferente do sistema de fases que tinha até então. Os sistemas de luz e cores vibrantes aos ataques e o deslocamento do jogo impressionam até hoje pela excelente artwork.

Silent Hill

“Os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual.”

Silent Hill (Foto: Divulgação)Silent Hill (Foto: Divulgação)

Silent Hill teve Resident Evil como seu precursor e sua influência, mas rapidamente tomou outro rumo. Este jogo criou novos gêneros: “tortura psicológica” e “pânico”. Além dos vários sustos, Silent Hill busca no subconsciente do jogador as fraquezas psicológicas e expõe na tela em forma de monstros ou de decisões a serem tomadas. A história da cidade de Silent Hill já é um grande questionamento psicológico em si. Segundo teorias, os monstros que a habitam não existem, pois são reflexos de medos e fobias do personagem principal.

Harry Mason está em Silent Hill para buscar sua filha perdida. A cidade é divida em “versão normal” e “versão sombria”. Em sua versão normal, há uma intensa neblina (não vendo nada a poucos metros de distância) e cinzas caindo do céu, como se fossem neve. A cidade turística tem uma religião ligada a um culto ao demônio cujo sacrifício necessita de Cheryl Mason. Mas acreditem, o jogo trabalha com elementos macabros.

A “versão sombria” da cidade é uma mistura de sangue, ferrugem, corpos pendurados, crianças chorando em banheiros e um medo constante de avançar. O jogo possui quebra-cabeças que fazem parte do gênero de sobrevivência, mas como Silent Hill trabalha com a tortura mental, o medo de progredir no jogo, de abrir uma porta, da lanterna não funcionar no breu total e do rádio chiando à presença de um inimigo, o game vai aos poucos dominando o jogador. Quando menos se espera, você vê-se preso a uma belíssima, arrepiante e triste trilha sonora em que seus medos são personificados em monstros e cabe a você derrotá-los ou covardemente desligar o videogame.

Tomb Raider

“Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições para apreciá-los.”

Tomb Raider tem vários elementos que o configuram como um clássico. A liberdade de exploração, ação frenética e, é claro, a protagonista (e musa dos games) Lara Croft. Muito inspirado em Indiana Jones, este game apresenta em um mundo totalmente em 3D cheio de tumbas, calabouços e outras localizações, matando animais perigosos e outras criaturas sobrenaturais, enquanto coleta objetos e resolve enigmas.

Tomb Raider (Foto: Divulgação)Tomb Raider (Foto: Divulgação)

O jogo dá uma grande sensação de liberdade, por mais linear que a ação pode se desenvolver. Como Lara Croft pula, atira em inimigos, se pendura e escala paredes e tem um grande fôlego para nadar embaixo d´água, você tem um imenso cenário para explorar. Os dificílimos enigmas são resolvidos com idas e vindas em busca de chaves e artefatos para o destrancamento de portas ou passagens secretas. O game, assim como as sequências da franquia, explora várias regiões arqueológicas do mundo, com diferentes temas, inimigos e relações com o cenário.

O jogo, por mais que tenha gráficos poligonais caóticos (visto que foi lançado em 1996), ainda sim é um excelente jogo, pois tem a sua dificuldade elevada e a sua diversão equilibrada ao longo da aventura. Tomb Raider foi uma grande influência no mundo dos games pela sua gigante exploração e pelos quebra-cabeças interligados uns com os outros. O jogo teve um remake feito para PSP, Play2, Wii e PC.

Calvino aponta um fato sobre os clássicos que também pode ser feito um paralelo ao mundo dos games: “Resta o fato de que ler os clássicos parece estar em contradição com nosso ritmo de vida, que não conhece os tempos longos (…)”. De fato, com a tecnologia caminhando cada vez mais para o seu desenvolvimento, muitas vezes acabamos esquecendo-se de jogos simples, pequenos ou até ‘cults’. Jogos estes que, longe das telas LEDs FULL HD, longe dos controles de movimentos ou até mesmo dos gráficos de última geração, estão guardando em si experiências que contribuíram e muito para o universo dos games. Experiências que ficarão marcadas para sempre na história do entretenimento eletrônico.

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