Sistemas Operacionais

27/07/2012 18h14 - Atualizado em 27/07/2012 18h18

Jon 'Maddog' Hall lota auditório para falar sobre a história do software livre

Nick Ellis
por
Da FISL

No segundo dia do FISL (Fórum Internacional Software Livre), Jon “Maddog” Hall contou um pouco da história do software livre para um auditório lotado. Com seu bom humor característico, o diretor-executivo da Linux Internacional (também chamado de "guru do software livre") conquistou a platéia antes mesmo de começar sua apresentação, com seu gorro em formato de pinguim.

Jon "Maddog" Hall no palco do FISL 13 (Foto: Nick Ellis (TechTudo))Jon "Maddog" Hall no palco do FISL 13 (Foto: Nick Ellis)

Jon Hall comparou a comunidade de software livre com uma colméia, na qual todas as abelhas trabalham em cooperação, cada uma com a sua função. Ele contou que no início, todos os programas eram livres: “As pessoas não criavam os programas para vender, e sim para resolver um problema ou uma necessidade específica que tinham”.

Quanto o Unix foi criado em 1968 por Ken Thompson, o objetivo era exatamente este. O problema é que a empresa onde ele trabalhava resolveu vender o sistema por uma verdadeira fortuna, então outras empresas (como a Sun Microsystems) começaram a comprar as licenças e a desenvolver novas funções. Mas quando estas eram criadas, elas não estavam disponíveis para todos os usuários.

Com a chegada do computador pessoal, o PC, surgiram os Newsgroups e a troca de programas através de fitas magnéticas. Com a popularização inicial da Internet, o compartilhamento de arquivos passou a ser feito via BBS, usando modems dial-up. Pouco tempo depois o CD-ROM passou a ser usado para isto, e empresas como a Prime Time Freeware lançavam CD-ROMs com vários programas de graça.

O caso Sourceforge

Quando a Internet começou a fazer sucesso, vários sites foram criados, como o Sourceforge.net, que foi criado e patrocinado pela VA Linux de Drew Streib, empresa na qual Jon “Maddog” Hall trabalhou. O Sourceforge continua no ar, mas hoje em dia é propriedade da Geeknet Media Inc, a mesma empresa que é dona da loja Think Geek e do respeitado site de notícias tecnológicas Slashdot. Hoje, 15 anos depois de ter sido lançado, o Sourceforge conta com mais de 324 mil projetos e com 3,4 milhões de desenvolvedores cadastrados, ou seja, que estão trabalhando em projetos e fazendo o upload de seus códigos.

Jon "Maddog" Hall (Foto: Nick Ellis)Jon "Maddog" Hall (Foto: Nick Ellis)

O Sourceforge consegue manter centenas de milhares de pessoas com o seu trabalho, pois conta com 46 milhões de “consumidores”, entre os quais estão grandes empresas da internet. O que inicialmente foi criado para disponibilizar programas GNU/Linux, acabou se tornando uma fonte de programas multi-plataforma, ou seja, que rodam em vários sistemas.

Muitos dos projetos disponíveis no Sourceforge são conhecidos do público, como o VLC Media player (um dos campeões de downloads do site), o programa de conversão de vídeo Handbreak, sistemas de controle de conteúdo como o Drupal, além de programas de finanças, mensagens instantâneas e muitos outros, todos seguindo o conceito de abertura do software livre, de ter o direito de mudar o que estavam construindo.

Um dos casos de maior sucesso é o Asterisk, um framework de código aberto para construir aplicações de comunicação, que surgiu em 1999, quando um jovem chamado Mark Spencer precisava instalar uma rede de telefonia PBX na sua empresa, só que não tinha os milhares de dólares necessários para comprar uma licença. Spencer então resolveu criar seu próprio sistema, que foi licenciado de forma gratuita como GPL (General Public Licence), depois que ele assistiu uma palestra do próprio Jon “Maddog” Hall. O projeto foi um sucesso e Spencer se tornou um milionário no processo.

Nas palavras de Jon Hall: “Se alguém te disser que não pode ganhar dinheiro com software livre, é só contar a história de Mark Spencer. Isto me lembra o caso de outra pessoa que em 1991 se perguntou o quão difícil era criar o kernel de um sistema operacional, Linus Torvalds, o criador do Linux.”

A força da comunidade

Para Jon “Maddog” Hall, a grande diferença entre a indústria de software proprietário e os programas de código aberto está na força da comunidade, que se espalha pelo mundo inteiro. “Soube outro dia que existe um programador japonês que mora na Alemanha e trabalha na versão em inglês”, conta Hall.

Ele contou algumas histórias inacreditáveis no mundo do software, como a universidade na Austrália que pagou 22 milhões de dólares australianos para uma empresa, e mesmo assim não tem uma versão funcional do sistema que contratou. “Eu mandei uma carta para esta universidade, dizendo para eles me pagarem a fortuna em dólares, que eu iria contratar dois programadores brasileiros e entregar o sistema em tempo hábil” disse Jon Hall, levantando aplausos da platéia.

Citando a perenidade dos programas proprietários, ele lembrou de um programa de genealogia que seus pais compraram por US$ 50 e adoravam, mas um belo dia a empresa faliu e parou de dar suporte ao aplicativo. “Existe um programa similar para criar árvores genealógicas em software livre, o Gramps, que continua tendo suporte até hoje de seus desenvolvedores”, contou Jon.

O exemplo da Red Hat

Muitos reclamam da falta de recursos de programas de código aberto. Jon Hall tem outra história sobre o tema: “Quando eu tinha acabado de começar a trabalhar com Linux, encontrei alguns jovens que estavam criando uma empresa chamada Red Hat. Acho que alguns de vocês já ouviram falar neles. Um dos fundadores estava tentando fazer a marca da empresa, quando eu sugeri a ele que invertesse a imagem. Ele me perguntou, mas é possível fazer isto? Esta foi a primeira vez que ele percebeu que um software livre poderia ser tão bom quanto o Photoshop”. A Red Hat fatura milhões de dólares hoje em dia, e seus fundadores viraram milionários.

Jon Hall conta que não gosta muito de programas criados para computadores desktop, pois os considera chatos. Ele gosta de aplicações de petabytes, com cálculos que demoram semanas para ficarem prontos. “A mente humana é composta por neurônios. Se nós somos capazes de pensar, porque um computador não pode? Uma máquina pode fazer cálculos gigantescos, se tiver memória e tempo suficientes, e esta é a base da teoria de Alan Turing. Apesar disto, também me gosto de sistemas integrados (embedded systems), que apesar de pequenos, são muito interessantes”, disse.

É preciso procurar respostas fora da caixa"
Jon Hall

Jon Hall também contou que adora emuladores e máquinas virtuais, e contou um caso: “Hoje em dia as pessoas falam de virtualização, como se fosse algo novo, mas eu estou usando emuladores desde 1973. Um bom tempo atrás, um velho veio falar comigo (ele era ainda mais velho do que eu, hoje). Ele tinha criado um programa em um velho hardware, mas não tinha mais o código fonte. Ele queria criar uma nova versão do aplicativo em Linux, então eu perguntei a ele, por que não fazer um emulador ao invés de programar tudo novamente? É preciso procurar respostas fora da caixa”, completou.

Muitas pessoas criticam o Sourceforge por ter muitos programas duplicados, mas Jon Hall conta que muito é fácil ordenar a busca pelos programas mais bem avaliados pelos outros usuários, o que te ajuda a encontrar os programas de qualidade.

Jon "Maddog" Hall no palco do FISL 13 (Foto: Nick Ellis)Jon "Maddog" Hall no palco do FISL 13 (Foto: Nick Ellis)

Outros criticam o site por contar com aplicativos que não são atualizados há um bom tempo. Nas palavras de Jon Hall: “É bem simples, o programador já terminou seu serviço, o programa está pronto. Se você for mudar um programa que já está pronto, terá a responsabilidade de dar suporte a esta nova versão, e como o tio Ben falou para o Homem-Aranha, com grandes poderes vem grandes responsabilidades”.

Novas versões de um software

E por qual motivo uma empresa de software lança novas versões periodicamente? Para Jon Hall: “A razão é vender novas licenças, mas um programa de software livre só é mudado para incluir novas funções, mas é preciso que a nova função realmente faça a diferença e que o desenvolvedor assuma a responsabilidade de manter o programa. Se houver apenas uma melhora mínima, não vale a pena.”

O Sourceforge tem muito mais programadores do que a Microsoft"
Jon Hall

“O Sourceforge tem muito mais programadores do que a Microsoft”, diz Jon Hall. “É importante destacar que a Microsoft tem muitos funcionários, mas muitos deles trabalham em marketing e vendas, enquanto outros trabalham colocando ou tirando programas de dentro de caixas. Se você contar quem realmente tem um cargo de programador na MS, terá no máximo uns 7000 funcionários”.

Com o software livre, você pode pegar uma parte de um programa que goste e usar este código no próprio programa, basta fazer uma licença GPL. Outra opção Creative Commons, que muitos não entendem como funciona. “O Creative Commons foi criado para facilitar a tarefa de licenciar conteúdo para propósitos específicos, como músicas, arte, imagens e fotografia. E por qual motivo eu deveria dar meu conteúdo de graça? Para ajudar a promover o seu conteúdo artístico atual”, explica Jon Hall.

Falando sobre o futuro do software livre, Jon citou a iniciativa Open Hardware, que instala Linux em hardware obsoleto, e o Open Education, projetos de instituições como MIT e Stanford para criar cursos online com testes, certificação e cartas de recomendação. Ele também citou algo que chamou de “governo aberto”, que seria um governo no qual a população pudesse realmente participar das decisões, citando o Partido Pirata com uma luz no fim do túnel. “Será que podemos sonhar com algo assim?” concluiu Jon “Maddog” Hall.

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  • Bruno Correa
    2012-07-28T19:59:15

    Mesma ladainha de sempre.

  • Pedro
    2012-07-27T22:16:04

    A causa é muito boa mas essa perseguição a microsoft é coisa de retardado. Deixa o cara ganhar o dinheiro dele, tem tanta empresa capitalista ai, a microsoft é só mais uma. Se os produtos dela nao fossem uteis a população, a mesma ja teria largado.