11/09/2012 10h36 - Atualizado em 18/09/2012 13h52

Single Player is dead. Respawning in 3, 2, 1…

Affonso Solano
por
Para o TechTudo

  Hoje faz exatos treze anos que joguei o melhor FPS da minha vida.

(Mentira, não sei o dia exato, só comecei o texto assim para criar um impacto dramático).

Meu amigo Rafael Damiani (que já havia me apresentado ao gênero “tiro em primeira pessoa” com Wolfenstein 3D e DOOM no começo dos anos 90) me chamou à sua casa, ofereceu-me sua honrosa cadeira em frente ao PC, fechou as cortinas, ajustou as caixas de áudio e disse para que eu me preparasse para jogar algo diferente. O som de rodas sobre trilhos subiu gradualmente e a tela clareou – eu estava a bordo de um bonde elétrico cuja única compania era a voz feminina que anunciava tranqüila nos auto falantes:

            “Bom dia, e seja bem vindo ao sistema de trânsito de Black Mesa”.

Go Freeman! (Foto: Go Freeman!)Go Freeman! (Foto: Affonso Solano)

Conforme os créditos surgiam sutilmente como em um filme, eu apreciava através das janelas o caminho percorrido pelo veículo, sem me dar conta de que estava literalmente embarcando em uma das maiores experiências da história dos videogames: Half-Life ensinou jogadores e desenvolvedores a contar uma história interessante em um gênero de experiência interativa que até então era sinônimo de tiroteio descerebrado.

Mas foi só quando os militares entraram que eu percebi que esse paradigma tinha de fato mudado.

Para quem não conhece Half-Life, em dado momento do jogo, os laboratórios são invadidos por uma força militar, cuja missão é eliminar não somente a ameaça interdimensional, mas também todas as testemunhas, incluindo a tia do café. No melhor estilo John McClane, você (até então apenas mais um físico teórico do lugar) pega uma metralhadora e se recusa a ser executado. Durante um desses tiroteios, me vi cercado em uma área de construção e joguei-me dentro de um contêiner, seguro de que ali teria tempo para repensar minha estrat–

(“tlim, tlim”, soa a granada arremessada pelo lado de fora e parando sobre meus pés. Som de explosão. Assístole. Game Over.)

Acredite, leitor jovencito; em 1994 isso não era terreno comum. Para o jogador que combatia inteligências artificiais desde os primórdios dos videogames, enganar um inimigo virtual era tão simples quanto o velho-truque-de-se-vestir-de-mulher-para-enganar-o-caçador do Pernalonga; uma vez que você soubesse como o inimigo pensava, bastavam as ferramentas certas para ludibriá-lo.

Mas agora as regras tinham mudado. Eles haviam dado um passo à frente, raciocinando e me caçando quase como pessoas de verdade fariam.

E pessoas de verdade já podiam fazê-lo há tempos, claro (mesmo em Doom, que citei na linha cinco), mas a experiência Single Player sempre foi emocionalmente diferente da Multiplayer. Quando finalizei minha aventura como Gordon Freeman, dediquei milhares de horas à matança online de Half-Life e seus derivados Team Fortress Classic e Day of Defeat (e guardo lembranças épicas de cada um), mas quando paro para analisar, vejo que ser “perseguido” por uma inteligência – seja ela artificial ou não – sempre é muito mais interessante quando dentro de um contexto dramático. E é por isso que acho interessante quando vejo alguém sugerir que “o Single Player está fadado a desaparecer”.

Calma Ben...Calma Ben... (Ilustração: Affonso Solano)

In a world…

Há muitas luas atrás, o Multiplayer servia basicamente para manter viva a memória de um jogo; uma vez lançada a sequência, o valor daquele produto ainda estaria fresco dentro de você, aumentando as chances da compra. Com a chegada dos DLCs e Xbox Lives, a luz verde no escritório das produtoras acendeu – o problema é que empresas funcionam como zumbis: só pensam em uma coisa ($) e farão de tudo para obtê-la, mesmo que isso signifique destruir coisas bonitas. E quando os números sugerem que a massa dedica cada vez mais tempo aos jogos Multiplayer, o que os engravatados traduzem é “VAMOS ENFIAR MULTIPLAYER EM TUDO”.

A questão é que a experiência Multiplayer, em sua maioria, exige menos engajamento emocional do jogador do que a Single Player, muitas vezes resumindo-se à repetição do raciocínio mecânico em troca da recompensa rápida do prazer (a morte em uma sessão online de Halo ou Call of Duty é frívola quando comparada a de Darksouls ou Black, por exemplo). Quando termino Assassin’s Creed ou Metal Gear, sinto que fiz parte de um propósito; absorvi uma história e recebi uma ideologia com a experiência. Quando venço uma partida de Battlefield, sinto que matei BloodKiller99 mais vezes do que ele me matou.

O mundo precisa ser salvo!O mundo precisa ser salvo! (Foto: Reprodução)

Agora é hora de encerrar a coluna

Não estou necessariamente menosprezando as partidas Multiplayer (calma, leitor, CALMA!), mas ressaltando a diferença de contexto entre elas e o “modo história”. Sei que também há um investimento emocional no mundo Online (abraço para os amigos do Leroy), mas incentivar uma indústria focada apenas em Multiplayer me parece desperdiçar o alcance da mídia, semeando um terreno emburrecedor da próxima geração de jogadores.

Apesar desse receio, acredito que os que insinuam que o Single Player será extinto seguem a mesma estrada inocente daqueles que disseram que o Cinema morreria com a evolução dos videogames (“ninguém mais vai querer assistir a um filme se pode participar de um”). Na minha visão, o Single Player não vai morrer, mas evoluir cada vez mais para algo que una seu poder cultural à cooperação e competitividade com outros jogadores. Afirmar que o “modo história vai acabar” é ignorar nossa própria antropologia: caçar mamutes em grupo é divertido e descompromissado, mas o que nos fez crescer como cultura foram as aventuras contadas ao redor da fogueira.

@Affonso_Solano

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  • Wolnei Reis
    2012-09-11T16:23:43

    jamais podem acabar com o modo historia cara por exemplo acabei de jogar max payne 3 e a historia dele e sensacional. aquelas cutscene q eu sempre pulo no max payne eu assisti todas pq chama muito a atençao. jogo excelente

  • Renato Pires
    2012-09-11T14:35:53

    Se considerar os últimos 3 anos dos vencedores do "jogo do ano", vocês verão que o multiplayer é somente uma forma de agradar o ego do jogador, além de fazer com que dispute com outras pessoas. Skyrim em 2011 (sendo que outro jogo muito bem avaliado era o Batman: Arkham City), Red Dead Redemption em 2010 e Little Big Planet em 2009 mostram que o grande poder ainda está na capacidade de se criar uma boa história, coisa que os multiplayers ainda não fazem e talvez nem poderão fazer, pela proposta de jogo. Pelo menos pra mim isso deixa bem claro que o SP nunca morrerá e só tende a melhorar.

  • Lucas P.
    2012-09-11T14:06:32  

    O Guilherme, lá embaixo, pergintou pra quem se mostraria os "atos heróicos" se não fosse o MP. Mas não é essa a questão. A questão é tu fazer parte de uma história épica (assim se espera, pelo menos), se envolver com os personagens, participar de seus dilemas, decidir os rumos tomados, e finalmente ver o desfecho que tudo acarretou! É como ler um bom livro ou assistir a um bom filme. Os jogos que citei ali embaixo são ótimos exemplos. Inclusive, quando se resolve botar um MP, às vezes até estraga, como foi o caso com o Mass Effect 3. Se deixou de lado a primazia da história, pelo bang-bang :/

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    • Lucas P.
      2012-09-11T14:06:32  

      Eu já joguei o mass effect, é interessante sim, mas sozinho achei sem graça, mesmo pela questão da história e dos rumos a se escolher... Jogue Resident Evil 5 por exemplo ou mortal kombat, você pode pressionar seu parceiro a jogar melhor, ou se pressionar, você não fica preso a uma inteligencia artificial como parceiro, ou que só vai replicar suas ações... é você e um amigo preso numa ilha de zombis, ou monstros, e não você sozinho tentando ser o melhor do mundo solitário onde você é a unica mente sã e todos os outros são computadores

  • Leonardo Fagundes
    2012-09-11T14:04:50

    A questão não é nem das produtoras querem meter MP em tudo, isso é mais u "pedido" das empresas de console para que suas redes online façam sucesso. Só vemos esse BOOM dos MPs pois a internet no mundo inteiro melhorou e a busca por jogar MP também. Nada disso foi forçado ao jogador, o jogador é quem abraçou a causa. Até por que vários jogos que tem MP hoje os servidores estão vazios. Claro que o SP não vai morrer e nunca vai. Mais e mais jogos são vendidos por causa da sua história. Não devemos tomar CoD como padrão.

  • Lucas P.
    2012-09-11T13:21:19  

    Texto fenomenal! Eu sou nascido nos anos 80, então peguei toda aquela onda de Mega Drive, Super Nes, até mesmo o PS1 nos 90, então cresci com a experiência do single-player, ou no máximo com um amigo para jogar ao lado. Realmente, existem certos tipos de jogos onde o acréscimo de um multi-player o deixa mais divertido, como é o caso do CoD (jogo de guerra, tiroteio, é extremamente divertido para jogar sem compromisso e para uma carga de adrenalina no seu dia), mas a imersão que se tem ao jogar um modo história, o envolvimento que se tem, é incomparável!... Como FFIIV, Mass Effect e Dragon Age

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    • Lucas P.
      2012-09-11T13:21:19  

      Corrigindo, é FFVII :P

  • Arnaldo Junior
    2013-04-05T09:44:31

    Excelente coluna! Concordo em gênero, número e grau. Aliás, é exatamente por esses argumentos que não me sinto incentivado a participar de partidas multiplayer. Por que fazer isso ao invés de entrar em uma nova experiência single player e ter o prazer de uma nova estória? Abraço!

  • Gustavo Ferreira
    2012-09-13T11:47:08

    belo texto! tbm não acho q o single player esteja fadado ao fim, mas é verdade q está passando por uma crise criativa nunca vista antes, assim como o cinema. porém enquanto tivermos jogos como The Elder Scrolls, Half-Life, Shadow of the Colossus, Braid, ou mesmo o recente Sleeping Dogs, por exemplo, creio q estamos salvos... anyway, gostaria muito de te adicionar na Live, mas sei q vc não pode sair divulgando sua gamertag. se sua lista não estiver cheia, a minha gamertag é "Gus Ro Dah". (han, han? entendeu?) vc faria um grande fã bem feliz :) mas relaxa, não sou nenhum stalker bizarro, hehe.

  • Allan Sobreira
    2012-09-12T20:45:42

    Me dêem um multiplayer com história! personagens interagindo com diálogo... tipo como se cada mapa fosse uma "fase" claro vc poderia jogar o mapa ou a fase(a história não seria obrigatória pra quem não quer, ou não quer repetir). Algum jogo já fez isso? Eu cago tanto pra multiplayer que nem sei... Mas se fizerem me avisem!

  • Allan Sobreira
    2012-09-12T20:43:01

    Um "problema" do Singleplayer é a "curta" duração. E como os consumidores querem fazer valer seu investimento em um jogo e as desenvolvedoras não querem que você revenda o seu jogo 24hrs depois de comprá-lo(isso ainda mais lá fora), Multiplayer hoje em dia virou obrigatório. Então poucas empresas se esforçam pra te dar uma experiência Singleplayer decente. É mais fácil colocar o jogador em um loop infinito de satisfação "simplória". Nunca curti multiplayer, único que joguei bastante foi de MGS4. Até o de Uncharted, apesar de bom, não me prendeu.

  • Bruno Machado
    2012-09-12T09:45:02

    Joguei todos, e após Wolf 3D, vieram ótimos como Duke também. Tenho até hoje a série completa Half e de vez em quando ainda instalo e jogo. Nostalgia rules!!!

  • Lineker Moraes
    2012-09-12T08:01:20

    Serei sincero... Eu odeio Multiplayer. já é dificil o suficiente tem que me preocupar comigo mesmo, ai tenho que ficar me preocupando com outra pessoa? Multiplayer só faz raiva, a diversão é menor e não te coloca na historia do jogo da mesma forma.

  • Lucas Rafael
    2012-09-11T21:02:04

    Sem respawn (não coube no outro)

  • Lucas Rafael
    2012-09-11T21:02:25

    E é por isso que fico feliz ao ver que tem jogos que insistem em manter um bom Single Player, como CoD e Battlefield. Acabando com as brincadeiras, tive a experiência parecida ao jogar God of War, sendo muito mais novo que nosso ancião, Affonso Solano. Quando joguei God of War, me assustei com a mecãnica do jogo, seu visual adulto e sua dificuldade. Videogame era pra mim, antes, Crash e Mario, nunca tinha jogado algo tão inteligente (leia como quiser) como o primeiro título da franquia. Quando vejo um Batman, por exemplo, que mantém o Single, fico feliz ao ver que jogos podem ser bons.

  • Gustavo
    2012-09-15T15:02:51

    Affonsinho falando em "terminar Metal Gear"? O que está acontecendo com esse mundo?

  • Marcio Martins
    2012-09-14T12:11:47

    Belo texto Affonso! Hoje eu jogo muito mais jogos multiplayer, mas por um motivo... Tempo! Apesar de vc ficar meio sem noção do tempo quando joga um call of duty por exemplo, quando eu jogo skyrim fico possuido pelo capeta... Ao inves de perder algumas horas do dia no multi player, eu perco algumas semanas do ano nos jogos single player... Tipo skyrim.... A ponto de só conseguir pensar nisso durante o dia... hahahah Então eu evito essas pragas! Jogo um multiplayer, mato e tomo alguns tiros, faço uns golzinhos mas depois fico alguns dias sem jogar tentando manter meu casamento... kkk

  • Arnaldo Junior
    2012-09-14T10:08:58

    Belíssima coluna, Affonso! Dou especial importância a esse tema, uma vez que não tenho interesse em partidas on-line. Pelo contrário, sou um aficcionado em partidas single player com boa estória. Espero fortemente que a indústria não enverede para a polarização dos games apenas no estilo multiplayer. Mas não consigo imaginar esse cenário. Creio que a indústria de games perderia a sua finalidade sem pérolas single player como Mario, Zelda e Metal Gear. Valeu, abraço!

  • Marcel Valverde
    2012-09-13T21:10:55

    é triste ver hoje em dia jogos como god of war com um modo multiplayer anunciado... tudo que mais gosto nos games são suas historias fantásticas! Um modo campanha bem trabalhado é melhor que um modo multiplayer genérico para comer dinheiro dos fãs. Aposto que uma forma bacana de misturar um pouco a "live" com as campanhas são os cooperativos... estou esperando ansioso para jogar o Assassin's Creed 3 com meus amigos. Eu aposto e torço que as grandes campanhas não morram. seja no modo singleplayer ou coop, mas não quero um futuro apenas de multiplayer mata-mata.

  • Raphael Calado
    2012-09-13T17:10:58

    Eu acredito que o singleplayer deverá continuar existindo. Muitas pessoas tendem a acreditar em extremos, mas a tendência sempre aponta para o equilibrio. O que pode acontecer e já vem acontecendo é a inserção de modos multi em jogos de natureza singleplayer e isso não é um problema de maneira alguma.

  • Luiz Silva
    2012-09-13T12:07:33

    Uma prova de que o single player jamais morrerá, é que os melhores jogos do ano passado e deste ano tem como principal foco o single player, vejam skyrim, batman, Uncharted 3, Portal 2 e mesmo os deste ano como Sleeping Dogs e Max Payne 3. Na minha opinião o Multiplayer é como as cenas adicionais quando se aluga um dvd, é legal quando se pode e se tem tempo de apreciar, mas se não for visto não fará muita diferença no entretenimento proposto.

  • Carlos Aguiar
    2012-09-11T13:25:23

    Cara... é só pensar nos sucessos que estão indo para a telona, Assassin's Creed, Uncharted entre outros, e o sucesso que estão fazendo. Multiplayer é, e continuará sendo um ótimo complemento para os jogos. Mas o singleplayer com história é "imorrível"..rsss

  • Jeison Costa
    2012-09-11T12:46:14

    Só pra completar, um exemplo: O nível de imersão e envolvimento de personagens, que a experiência do Single Player de 'Red Dead ', 'Skyrim' ou 'Sant Andreas' dificilmente seria replicada nos atuais modelos de multi-player competitivo ou cooperativo.

  • Allan Sobreira
    2012-09-11T12:42:28

    Como assim "...qdo eu termino metal gear..." vc não joga metal gear! XD sacanagem, abraço!

  • Jeison Costa
    2012-09-11T12:41:27

    Acho que essa discussão está relacionada ao fato de 1. Os grandes blockbusters são jogos que tem estórias e personagens muito simples ou insignificantes caso de CoD, Fifa e outros. 2. Os jogos são caros e frequentemente curtos como postou o Leonardo Sensui disse. Por isso gosto muito de sand boxes e RPG's que são longos. Neste final de semana ultrapassei 50h no Lost Odyssey e depois finalmente jogarei GTA4. E depois Skyrim. Jogos longos com grandes experiências.

  • Heriberto Estolano
    2012-09-11T12:34:51

    Bom Afonso. Não creio que o Single Player esteja fadado a acabar, tal qual não concordo com esse discusso "comunista de butequim" que as empresas estão sempre visando o Lucro. Ano passado, Skyrim conseguiu provar que um game não precisa de Multiplayer, nem de DLCs de primeiro dia ou travas anti-revenda para ser um sucesso de vendas e prender o jogador por 89 horas seguidas. Todos nós compramos o game o jogomos incessantemente por que gostamos dele ( com todo o respeito aos que não gostaram). Quanto a experiências multiplayer, recomendo que jogue Dark Souls. Grande abraço!

  • Fabio Nascimento
    2012-09-11T11:35:19

    Estou vendo que sou um caso a parte, sou muito mais de jogar o bom e velho modo história, sem contar que os jogos de aventura em terceira pessoa (meus preferidos) nunca tem um multiplayer decente.