23/10/2013 16h47 - Atualizado em 23/10/2013 17h42

Indústria de efeitos visuais vê futuro nos games, diz diretor de arte de Avatar

Leonardo Avila
por
Para o TechTudo

O diretor criativo da Digital Domain, Neil Huxley, conversou com o TechTudo durante o The Union, evento para estudantes e entusiastas da arte digital organizado pelas escolas Saga e Gnomon. Huxley fala sobre a nova importância dos videogames e da televisão, critica a indústria do cinema e comenta Ender’s Game, primeiro longa-metragem de grande porte a ser co-produzido por uma empresa de efeitos visuais, que chega aos cinemas no fim do ano.

neilhuxley1Em menos de 2 minutos de vídeo, a Warner Bros. conseguiu fazer de Mad Max um dos jogos mais comentados da E3 deste ano (Foto: Divulgação)

Não é segredo algum que a indústria dos videogames tem investido pesado em advertisement nos últimos anos, resultando em campanhas publicitárias gigantescas, lançamentos faraônicos e propagandas no horário nobre das televisões americanas. Até espaço publicitário no famossísimo campeonato de futebol americano Super Bowl (cujo custo por 30 segundos de transmissão chegou a US$ 4 milhões no ano passado) também tem sido invadido por games.

O LA Times aponta que, este ano, grandes empresas do ramo dedicam algo entre de US$ 250 mil a US$ 500 mil por comercial, na busca de chamar a atenção de um público cada vez mais exigente e bombardeado por um crescente universo de opções.

Para tanto, EA, Activision, Ubisoft e outras gigantes do ramo apostam em know-how importado de Hollywood. É o caso, por exemplo, da californiana Digital Domain, co-fundada por James Cameron e envolvida nos efeitos especiais de produções de grande porte, como Titanic e a adaptação para os cinemas de O Senhor dos Anéis. A empresa foi responsável, entre outros, pelo trailer do game Mad Max na E3 deste ano e o comercial de Destiny (vídeo abaixo, dirigido por Jon Favreau – Homem de Ferro -, protagonizado por Giancarlo Esposito – Breaking Bad), e vê no ramo dos videogames uma alternativa para o dificultoso cenário enfrentado por estúdios de cinema, que vêm cortando gastos e enfrentam competição ferrenha de novos modelos de negócios.


Confira nossa entrevista completa com Neil Huxley. Entre seus trabalhos estão diversos trailers e comerciais para promoções de jogos, como Dead Space 3, Mad Max e NBA 2K13, e filmes como Avatar.

Techtudo: 2013, talvez mais exatamente esses últimos meses, tem sido marcado por baixos ganhos em bilheterias. Círculo de Fogo e Elysium foram super produções, arcaram com riscos tremendos e, infelizmente, não vingaram. Por outro lado, você vê surgindo fenômenos avassaladores tanto nos games como na televisão, protagonizados por novos símbolos da cultura pop, como GTA 5 e Breaking Bad. Como isso afeta seu trabalho?

Neil Huxley: bem, nós trabalhamos um pouco de tudo – filmes, games, TV. Mas, para nós, é um efeito natural da indústria neste momento. Filmes estão ficando mais caros para produzir, os estúdios, claro, querem fazê-los por menos, e a maneira que eles encontraram para tal é levar equipes para o Canadá, por exemplo, onde existem incentivos governamentais; então, como isso nos afeta é que agora temos que expandir operações para países em que haja alívios tributários se quisermos manter as portas abertas. É uma pena que produções estejam migrando de Los Angeles; é parte culpa dos estúdios e parte do governo da cidade. É o que me deixa perplexo. Hollywood tem um dos piores incentivos fiscais do mundo. Você pensaria que eles iriam querer mais é manter gente trabalhando lá, mas não é o que acontece.

neilhuxley2Neil Huxley, diretor criaivo da Digital Domain (Foto: Leonardo Ávila / TechTudo)

Vai haver um bocado de efeitos colaterais. Há também o fato de que muitos desses filmes são exageradamente inflados; sabe como é, Círculo de Fogo, Elysium – eu gostei de Círculo de Fogo, entretanto; mas no fim do ano você tem Os 47 Ronins, que custou US$ 250 milhões. Não tem como eles conseguirem essa grana toda de volta. É um filme de samurai! (risos) Você deveria estar fazendo longas desses por 10 ou 20 milhões. Por outro lado, você tem Elysium. Eu fiquei tão desapontado com o filme. Eu acho que ele era visualmente legal, mas, em termos de história, creio que eles ficaram sem saída, o script não era tão bom. E eu sei que muitas pessoas se sentiram assim.

TT: E o pessoal de Distrito 9 estava encabeçando o filme também.

NH: É, Distrito 9 foi um baita filme, Acho que o público estava esperando a mesma coisa de Elysium, e, infelizmente, a trama não chega a alcançar exatamente o mesmo nível. Uma pena, queria que o filme tivesse sido incrível.

Mas então pessoas passam a procurar entretenimento em outros lugares, televisão e videogames, por exemplo. A TV, por sinal, está virando a nova Hollywood. Astros famosos, famosos mesmo, estão correndo para pegar papéis em televisão. Produções como The Walking Dead, Game of Thrones e Breaking Bad provam que você pode realmente ter bom conteúdo na programação.

TT: E há, ao mesmo tempo, um crescimento no uso de CGi também, certo?

NH: É, existe, e está melhorando. Costumava ser horrendo, mas agora está muito melhor. Você olha os detalhes destes seriados e percebe que eles estão investindo dinheiro nos lugares certos e criando efeitos bem legais, o que, por sua vez, só aumenta o status do show.

TT: E quanto a sua experiência trabalhando com videogames?

NH: Nós estamos agora co-produzindo filmes e criando comerciais para empresas de videogames, mas estamos mais envolvidos com jogos nestes últimos anos. Isso graças ao meu chefe, Rich Flier (atual presidente do setor comercial e de games da Digital Domain), que tem um vasto conhecimento da área. Desde que ele chegou, nós estivemos mudando o jeito que trabalhamos no setor de comerciais – na minha opinião, foi pra melhor. Hoje em dia não estamos mais dependendo de propaganda de carro (risos). Era tudo o que a gente fazia, mas agora estamos criando estes modelos de personagens inteiramente em computação gráfica e é tudo parte de uma mudança de ares que levou pouco mais de dois anos. É bem legal.

neilhuxley3Ender's Game chega no fim do ano, é dirigido por Gavin Hood (X-Men Origins: Wolverine) e conta com nomes como Harrison Ford e Ben Kingsley no elenco (Foto: DIvulgação)

TT: E agora vocês estão co-produzindo seu primeiro longa, Ender’s Game. Frio na barriga?

NH: O filme está se saindo bem, até onde eu saiba, muitas pessoas estão animadas com o projeto. O livro tem muitos fãs, então é algo grande. Além disso, assisti recentemente ao filme, há uns dois meses atrás, sem muitas das cenas finalizadas, e foi bom. Então mal posso esperar pra ver o resultado final, com todos os efeitos visuais no lugar. Há sim nervosismo, mas dedos cruzados para que seja bom.

E é, tipo, “olha isso, esse pode ser o começo de um novo modelo de negócios para estúdios de efeitos visuais”. Co-produzindo o filme, o dinheiro vai chegar eventualmente aos artistas, ao invés de ir direto aos bolsos dos estúdios. Então, se Ender’s Game vingar, a indústria pode entender que esta é a maneira que podemos fazer as coisas. Isso poderia ser de grande ajuda.

TT: Se tornar parte mais ativa do ciclo de produção?

NH: Exato, porque os artistas têm um interesse investido no projeto. Não estamos fazendo Ender’s Game para alguém. Estamos fazendo para nós mesmos e acho que isso é importante, mantem o caráter autoral do trabalho e, se tudo der certo, você tem um retorno sobre isso. Assim, estúdios de efeitos visuais não ficam a deriva a cada novo projeto. Se o filme vai bem, a companhia vai bem, e é assim que deveria ser. Mas você vê empresas como a própria Digital Domain, indo à bancarrota, assim com outros estúdios passando por momentos difíceis, então, sabe, há muito peso em cima desse nosso filme.

Qual livro você acha que deveria se transformar em um jogo? Opine no nosso fórum.

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