Por Leonardo Avila; Por TechTudo


Nome: Donkey Kong Country Returns
Gênero: Plataforma 2D
Distribuidora: Nintendo
Plataformas: Nintendo Wii

Donkey Kong Country Returns (Foto: Divulgação) — Foto: TechTudo

30 anos depois do primeiro Donkey Kong, uma coisa pode ser dita sobre a Nintendo: ela conta com um arquivo de memórias (entre mascotes e franquias) que rivaliza como o inventário de gente como Disney, e ela não esconde sua sede em regatá-las repetidas vezes. Outro fato menos gloriosos da companhia é seu apego por seus estúdios parceiros, desenvolvedoras selecionadas para produzir o mais novo hit da Big N enquanto ela está ocupada demais cavando seu armário de lembranças.

O jogo da Nintendo é, acima de tudo, de cartas marcadas e, sim, a longo prazo pode se provar uma verdadeira deficiência operacional (a insistência em apostar em estúdios terceirizados e publishers third-party para o lançamento do 3DS prova que a empresa está ciente do risco), mas, apesar dos pesares, o resultado – os games em si – raramente deixa de ser uma jóia.

Donkey Kong Country Returns é a mais recente prova disso. O jogo foi desenvolvido pela texana Retro Studios, convocada para revisitar a série Country iniciada pela Rare em 1994, nos tempos de SNES. O estúdio americano saiu da anonimidade de uma maneira repentina depois de criar o genial Metroid Prime, que misturava uma nova mecânica de FPS genialmente costurada com o ritmo e exploração clássicos da série.

Mudança de hábito

Em Returns a aposta da equipe é aparententemente menos ousada. Com uma jogabilidade 2D sobreposta em cenários 3D, o jogo traz mais do que uma memória passageira de seus antecessores: ele é essencialmente Donkey Kong Country. Parar por aí é um disserviço tanto para nossos leitores quanto para a dedicação exemplar da Retro; apesar das semelhanças, são os pequenos detalhes que vão te prender novamente ao mundo colorido do famoso gorila engravatado.

Donkey Kong Country Returns (Foto: Divulgação) — Foto: TechTudo

O mais notável dos destaques é o visual. Deixando para trás os gráficos criados a partir do velho SuperFX, Returns aposta em polígonos e cores gritantes, mas, mais importante, em cenários dinâmicos. Nos melhores momentos, é coisa digna de God of War: ruínas desabam ao fundo, navios piratas lançam bombas no caminho dos símios, polvos e morcegos gigantes servem como constante ameaça (invadindo ao menos um terço do seu televisor) e uma fase inteira é colocada em um planície de cascalho queimada por um ardente pôr-do-sol e em plena demolição. Tudo é recriado com partículas e efeitos que são um verdadeiro sopro de vida para o hardware limitado do Wii.

Toda a jogabilidade é influenciada por essas “fases vivas”, criando um vai-e-volta muito bem calculado: um dos estágios é castigado por ondas que vêm em intervalos constantes e só podem ser evitadas se o jogador se proteger atrás de rochas. Jogadores mais receosos entretanto ficam impossibilitados de capturar todos os itens da fase, uma vez que a água lava tudo: tanto os macacos quanto seus inimigos, bananas, letras KONG, etc. É por meio desse casamento entre estética e jogabilidade que Returns se prova o mais divertido dos carrascos: ele está sempre jogando uma isca ao jogador ao mesmo tempo que a faz dançar pra lá e pra cá na sua frente. É um balanço viciante.

Donkey Kong Country Returns (Foto: Divulgação) — Foto: TechTudo

Macacos (pavlovianos) me mordam!

Vale deixar claro: Donkey Kong Country Returns é um jogo difícil, e não dos mais bem estruturados neste sentido. O primeiro mundo é uma moleza, a não ser por sua fase secreta (templos especiais são abertos toda vez que todas as letras KONG de todos os estágios de um dado mundo são coletados). Aqui o jogo exige presteza no mínimo timing em acertar um inimigo: apertar o salto um milésimo de segundo – literal – antes do impacto faz com que Donkey e Diddy façam um segundo pulo mais alto. O final do templo secreto é inacessível de outra maneira, e o jogo jamais chega a te ensinar essa manobra da maneira que deveria. Em outros momentos, a dificuldade é a verdadeira cereja do bolo. Jogue o mundo Factory ou qualquer dos estágios do carrinho de mina e é possível que você tenha uma injeção de adrenalina que você só imaginaria em um desses mega-lançamentos para consoles HD.

Ainda bem que os controles nunca deixam de ser amigáveis: Donkey e Diddy respondem bem aos controles e até mesmo rolá-los pelo cenário – movimento realizado chacoalhando o Wii Remote – é de uma notável facilidade e precisão. O sistema tem ainda seus charmes extras: com Diddy nas costas, Donkey é capaz de planar curtas distâncias ou mesmo rolar o quanto quiser. Balançar o controller enquanto os personagens estão abaixados ou parados faz com que eles soprem e batam no chão, respectivamente. A manobra é fundamental para coletar todos os itens das fases.

Donkey Kong Country Returns (Foto: Divulgação) — Foto: TechTudo

Colocando panos quentes

Para os menos preparados é possível chamar a ajuda de uma IA. Depois de um número de tentativas, uma opção em que um Donkey (branco) completa o cenário automaticamente para você pode ser acessada. O cenário continua incompleto, mas ao menos é possível passar para uma fase a frente. Pode ter sido sem querer, mas até mesmo o macaco branco exibe um quê de “genialidade”. Em todos nossos testes, o símio errava as letras KONG, vacilava ou ponderava antes de um pulo. Por isso, passamos a ter como hábito voltar a um cenário incompleto não apenas por um item ou outro, mas porque tínhamos clara a certeza de que, sim, podíamos lavar o chão com a cara do tal gorilão albino.

Donkey Kong Country Returns (Foto: Divulgação) — Foto: TechTudo

Já que falamos antes do visual, vamos a um ponto fraco. Se na melhor das hipóteses , o jogo adquire um caráter épico digno de God of War, em outras é difícil não reparar que o jogo vende parte do apelo do original em troca de uma atualização visual. Enquanto Donkey Kong Country casava de forma interessantíssima elementos cartunescos e realistas em seu visual pré-renderizado, Returns chega a parecer um mero desenho de domingo de manhã. Combine isso com a dificuldade que chega a picos bem elevados, e o resultado é uma mistura de elementos que pode tornar o game desinteressante para jogadores novatos.

O multiplayer também traz outro problema: ele simplesmente não é tão bem amarrado quanto a experiência para um jogador. Em Returns, dois jogadores podem atravessar as fases do jogo, um como Donkey e outro como Diddy. É justamente em tirar o chimpanzé das costas do gorila que a Retro comete seu maior pecado. Sem a chance de planar no ar e com ambos dividindo a mesma tela de jogo, Returns e sua dificuldade viram um objeto demasiado indigesto. Não faltou ao menos uma ideia boa. Jogadores mais experientes podem controlar Donkey e, ao aperto de um botão, colocar um outro jogador menos habilidoso em suas costas, ativamente carregando-o pelos cenários mais tortuosos.

Para terminar em um tom positivo, a trilha sonora de Returns é deliciosa. O compositor Kenji Yamamoto (da série Metroid) criou uma homenagem impactante ao trabalho original de Robin Beanland, Eveline Fischer e David Wise, realizado em Donkey Kong Country, adaptando as velhas músicas ao estilo mais animado e explosivo da sequência. Poder coletá-las e colocar todas em uma galeria é mais uma cereja no bolo.

Conclusão

Apesar das falhas, Donkey Kong Country Returns é um magistral exemplo da habilidade dos artesãos digitais da Retro Studios, e um motivo a mais para acreditar nas velhas práticas da Big N – e até mesmo em sua capacidade de arriscar. Seja por uma penca de bananas perdidas, ou uma explosão épica de cor e rocha, ou mesmo mais uma letra K perdida pelo Donkey branco e sua IA mecânica, é difícil não querer investir horas e horas no jogo. Estímulo é o que não falta.

9

Gráficos
8
Jogabilidade
9
Diversão
9
Som
8

Prós

  • . Visualmente surpreendente e dinâmico
  • . Os controles são macios como seda
  • . Ao mesmo tempo nostalgico e novo

Contras

  • . Os desafios do jogo não são bem comunicados
  • . Multiplayer pouco funcional

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