Jogos de terror
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Por Luiza M. Martins, da redação


The Quarry é o mais novo game de terror interativo da Supermassive Games - mesmo estúdio de títulos como Until Dawn e a antologia The Dark Pictures, composta até agora por Man of Medan, Little Hope e House of Ashes. Lançado em 10 de junho para os consoles PlayStation (PS4 e PS5), Xbox One, Xbox Series X/S e PC, o jogo oferece a proposta de ser uma narrativa cinematográfica de horror baseada em filmes do subgênero slasher, como Evil Dead: A morte do Demônio ou mesmo a série Rua do Medo, da Netflix. O jogo chega às plataformas com preços que variam entre R$ 349,90 até R$449,90, em sua versão mais completa.

No game, o jogador deve tomar as decisões corretas para manter um grupo de jovens monitores vivos durante uma noite de terror no acampamento Hackett's Quarry. Mas será que a premissa, tão explorada no cinema e nos jogos, funcionou? O TechTudo testou o jogo e te conta na nossa análise, a seguir.

The Quarry é um jogo de terror baseado em filmes do subgênero slasher — Foto: Reprodução/Luiza M. Martins

A história

Como acontece em títulos narrativos como o próprio Until Dawn e Detroit: Become Human, os eventos de The Quarry são contados em capítulos e, em cada um deles, o jogador tem a oportunidade de controlar diferentes personagens. No prólogo do game, os selecionados são Laura e Max, uma dupla de jovens namorados que vão ser monitores do acampamento Hackett's Quarry pela primeira vez. O jogo se inicia quando eles resolvem, um dia antes do combinado - e durante uma fria noite - comparecer ao posto. Ainda na estrada a caminho do acampamento, o casal sofre um acidente ao ter que desviar de um animal não identificado.

The Quarry tem 9 personagens jogáveis e, a cada capítulo, o jogador assume o papel de um (ou mais) deles — Foto: Divulgação/Steam

Após saírem do carro para tentar entender o que houve, eles são abordados por um estranho policial que os diz, sem dar muitas justificativas, para seguir para um hotel nos arredores em vez de Hackett's Quarry. Assustados pela abordagem, eles optam por desobedecer às ordens e seguem o plano original de ir para o acampamento. Depois que chegam lá, se deparam com o chalé principal vazio e, na urgência de tentar encontrar alguém para atendê-los, acabam arrumando sérios problemas.

Após o prólogo, a história avança por dois meses, sendo retomada a partir da perspectiva dos demais monitores: Dylan, Ryan, Nick, Jacob, Emma, Abigail e Kaitlyn. Eles deveriam ir embora do acampamento naquele dia, mas acabam sendo forçados a ficar por conta de um problema técnico com o transporte. Para comemorar a última noite juntos, eles resolvem fazer uma festa com fogueira a céu aberto. Essa, no entanto, acaba se tornando uma das piores decisões que poderiam ter tomado.

No game, os problemas começam depois que um grupo de monitores fica preso no acampamento Hackett's Quarry — Foto: Divulgação/Supermassive

Gameplay

A gameplay de The Quarry é bastante simples. O jogo pode ser jogado invididualmente ou em coop. In game, basicamente o que o jogador deve fazer é andar pelo cenário atrás de pistas, evidências, cartas de tarot e colecionáveis. Além disso, ele também vai fazer escolhas (algumas delas, com tempo limitado) que vão afetar diretamente os acontecimentos. Nas partes de mais ação, é necessário responder com agilidade aos quick time events, onde o jogador deve apertar os botões que aparecem na tela nos momentos certos. Dependendo da cena, errar um desses pode resultar, inclusive, na morte dos personagens.

As cartas de tarot do jogo funcionam como os totens de Until Dawn e permitem que o jogador veja um pequeno spoiler do futuro — Foto: Reprodução/Luiza M. Martins

Coletando as pistas, que funcionam como peças de uma quebra-cabeça, o jogador vai descobrindo mais detalhes sobre os acontecimentos do game. As evidências, por outro lado, desbloqueiam opções de ações e diálogos, podendo até mesmo ser a diferença entre manter um personagem vivo ou perdê-lo de vez. Já cartas de tarot são como os totens de Until Dawn - ao coletá-las, uma personagem mostra um pequeno spoiler do futuro para orientar a tomada de decisão do jogador. É preciso estar atento, já que todos esses itens são perdíveis.

Aspectos técnicos

Em termos de qualidade técnica, The Quarry é, sem dúvida, o melhor dos títulos interativos da Supermassive Games. O game utiliza motor gráfico Unreal Engine e conta como um elenco de atores conhecidos do público para dar vida aos personagens. O resultado são expressões facias bem feitas e que transmitem muito bem o pavor, o desespero e a dor de quem se encontra na situação. Isso sem falar de questões como a iluminação e as texturas detalhadas, destaques dos gráficos do jogo, que não hesita nos closes fechados e claustrofóbicos. Aliás, esse é outro ponto alto: a direção, abertamente cinematográfica, é bem conduzida e faz um excelente trabalho alternando os momentos de gameplay e as cutscenes.

The Quarry é muito bem dirigido e abusa dos closes com gráficos detalhados — Foto: Reprodução/Luiza M. Martins

No entanto, apesar do realismo, é válido ressaltar que o jogo ainda conta com alguns problemas nesse sentido. Apesar das expressões, os olhares dos personagens quase nunca têm um ponto focal, o que dá a impressão de que eles não se olham. A sincronia labial com as falas, principalmente na versão dublada em português, também precisa de alguns ajustes.

Testamos o game em um PS5 onde, em pouco mais de 10 horas de jogo, notamos apenas um bug: um eventual delay de renderização do ambiente. No mais, o jogo rodou com uma taxa estável de FPS e sem nenhum tipo de problema técnico. A única crítica nesse ponto é que, como acontece em muitos jogos de terror, The Quarry tem trechos escuros demais, que chegam a atrapalhar a visibilidade de quem joga.

Apesar do primor técnico, o jogo tem trechos muito escuros e que atrapalham a visibilidade — Foto: Reprodução/Luiza M. Martins

Outro fator bem interessante do game é que, por ter a proposta de ser quase um longa-metragem de terror interativo, o jogo conta com o "modo filme", onde é possível assistir tudo sem ter que jogar ativamente. Aliás, o jogador também pode decidir se, nesse filme, todos saem vivos ou mortos. Além disso, o game também oferece filtros de cores temáticos e um modo streamer, para aqueles que desejam fazer transmissões sem correr o risco de ter o conteúdo derrubado por conta dos direitos autorais das músicas.

Tinha tudo para ser fantástico, mas…

O título da Supermassive Games é baseado, principalmente, em filmes de terror slasher e, como tal, segue até mesmo alguns clichês do subgênero, como os arquétipos dos personagens e as tomadas de decisão duvidosas em contextos ainda mais duvidosos. A questão é que, para um jogo tão debruçado no roteiro e que aposta em uma premissa tão batida, faltou criatividade para explorar o game e torná-lo memorável para os fãs do gênero. E isso é uma pena, já que, visivelmente, há muito carinho envolvido no projeto e é fácil se envolver com o contexto.

O jogo não tem pudor na hora de representar a violência nas cenas — Foto: Reprodução/Luiza M. Martins

A começar pelo enredo, que pode ser deduzido quase que por inteiro pelo mais atentos já no prólogo através das pistas encontradas. Quem jogou Until Dawn pode, inclusive, se recusar a morder a isca logo de cara, esperando algum plot twist ou o surgimento de uma peça ainda não revelada que vai mudar o rumo do jogo. Mas a verdade é que, desde o início, o game basicamente vai confirmando até as suspeitas mais simplórias do jogador e permanece nesse ritmo até o final.

Outro fator de incômodo é a recusa dos personagens a contar o que está acontecendo em Hackett's Quarry. Isso só acontece com todas as letras no terço final do game, depois que o jogador já não tem muito mais o que descobrir porque já vivenciou os eventos. Esse recurso seria muito útil para segurar o mistério até o final. Todavia, como não há grandes mudanças no que é proposto desde o início, o que acontece, na prática, é um eterno "por que ele não fala logo? Os personagens já sabem o que aconteceu." No fim, a sensação é que a tal noite de horror poderia ter sido evitada por inteiro caso os personagens que sabem dos perigos do acampamento tivessem simplesmente alertado os demais em vez de fazer mistério.

Mesmo com grande potencial, o roteiro pouco criativo impede o jogo de se tornar memorável — Foto: Reprodução/Luiza M. Martins

Além disso, na prática, as decisões que vão resultar em bons frutos são um tanto quanto óbvias, o que é incômodo quando há títulos de propostas similares disponíveis no mercado, como Detroit: Become Human, que deixam o jogador muito mais desconfortável nesse sentido. Com a exceção dos capítulos finais, onde é mais difícil prever o que cada escolha vai render, o game oferece opções que, no geral, não geram muitas dúvidas.

Isso não significa, no entanto, que o jogo não seja complexo. Muito pelo contrário até. The Quarry conta com uma boa quantidade de ramificações e desdobramentos para o seu enredo principal e as escolhas, ao contrário do que acontece em jogos como Life is Strange, realmente importam para o rumo da narrativa.

The Quarry tem ramificações complexas de enredo e sabe explorar a temática para amplificar as opções de escolha do jogador — Foto: Reprodução/Luiza M. Martins

Um destaque é, inclusive, como o jogo aborda as possibilidade de infecção (termo genérico que vamos usar para prevenir spoilers). Há diferentes possibilidades de ações, finais e mortes dependendo de quem foi ou não infectado, o que dá margem para que o jogador crie uma narrativa realmente personalizada. Apesar de não ser tão amplo como Detroit: Become Human, onde há capítulos exclusivos dependendo de cada decisão, as possibilidades em The Quarry são mais do que o suficientes para garantir um bom fator replay.

Além disso, o game aposta em personagens carismáticos que conseguem representar bem os clichês, mas sem deixar os jogadores entediados. Há bons diálogos, piadas, e até mesmo momentos de tensão e de apoio que ajudam a conquistar a empatia de quem joga. E na hora da morte, é bom se preparar para a violência: o jogo não tem pena nenhuma para desmembrar, decapitar e retalhar os pobres monitores. Isso que pode ser bom ou ruim, dependendo do que o jogador espera de um título do gênero. É válido ressaltar que salvá-los, no entanto, normalmente é bem fácil, já que os quick time events não são nada complexos. Deveriam ser mais, inclusive.

The Quarry vale a pena?

Para quem gosta da proposta de terror interativo, o jogo é uma boa opção, ainda que não seja perfeito — Foto: Reprodução/Luiza M. Martins

The Quarry é um bom jogo. Muito bom, até. Impressiona com os gráficos, tem personagens cativantes e com boa química, desdobramentos relativamente complexos, uma história que prende e desperta curiosidade… mas, infelizmente, ele para por aí. O jogo poderia superar os títulos anteriores da Supermassive Games, mas a falta de um enredo mais com nuances e surpresas acabam transformando o título em um game com potencial, mas que não soube como aproveitá-lo completamente.

No entanto, é válido ressaltar que, apesar disso, o game continua sendo extremamente divertido e fácil de se envolver. É uma boa pedida para quem gosta do gênero slasher e, em especial, para aqueles que tem afinidade pela temática - essa, sim, que ainda não foi tão aproveitada quanto poderia no universo dos jogos eletrônicos. Apesar dos deslizes, The Quarry definitivamente merece uma chance. A questão é saber o quanto cada jogador está disposto a relevar pela experiência – e, claro, quanto está disposto a pagar também, principalmente considerando o preço nada convidativo do game no lançamento.

8.2

Um diamante bruto, mas faltou lapidar

The Quarry tinha potencial para ser um dos melhores jogos de terror interativos já lançados, mas perde a chance de triunfar por conta da falta de ousadia do roteiro. Contudo, os personagens carismáticos, as ramificações da história e os aspectos técnicos ainda conseguem fornecer uma boa e divertida experiência.
Diversão
10
Gráficos
10
Sustos
6
História
7
Ramificações do enredo
8
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